AULA 1: PISM I e PISM III: CLASSES GRAMATICAIS

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Leia um fragmento do livro clicando na TAG “oversodalíngua”, ao final do post.

O estudo das classes gramaticais tende a ser cansativo e infrutífero, quando elas são vistas e reconhecidas como formas isoladas, descontextualizadas. O escritor Juva Batella (visite o seu blog clicando na TAG “Blague do Juva” ao final do post) publicou aos 24 anos de idade, o romance gramatical “O Verso da Língua”, cujos personagens são algumas classes gramaticas, figuras de linguagem, sinais de pontuação, entre outros elementos gramaticais.

Juva Batella, em O verso da língua, um romance gramatical (1995), introduz o próprio signo gráfico e ortográfico (como o Negrito, o Acento e as Reticências), e as categorias gramaticais (o Substantivo, Adjetivo, Verbo e Advérbio) como personagens. De significantes passam a signos, sujeitos da escrita. São colocados em diálogos, segundo a função referencial que exercem na gramática, interagindo e formando um jogo de poder.
Vê-se isto claramente quando é feita a chamada dos presentes ao Debatedouro pelo Senhor Vocativo:

– Senhor Aposto!
– Eu, o Aposto, estou, aqui, neste Debatedouro, presente, senhor Vocativo!

– Senhor Ponto de Interrogação?
– O que é?

– Senhor Advérbio de Igualdade!
– Estamos tão presentes quanto você, Vocativo!
– Senhor Advérbio de Superioridade!
– Quero lhe dizer que estou e sou mais presente do que você, seu bostinha!

– Senhora oração Subordinada!
– Só respondo se a Principal deixar e depois do Pai Nosso…
– Nada de Pai Nosso! Calem a boca dela! Calem a boca dela! - berrou o Cacófato. (115)

O TEMA PRINCIPAL DA OBRA: A REFORMA ORTOGRÁFICA

O ESPAÇO
Batella coloca as personagens ao redor de uma mesa deliberadora, chamada o Debatedouro, para votar o projeto de modificação da língua. Este espaço de discussão do Acordo - o Debatedouro-, é na realidade um abatedouro, onde se abate a língua portuguesa na obra, fazendo-se dela uma carnificina, pelas mutilações propostas. Os honrados burocratas do Gabinete da Cultura na obra, antes da votação, defrontam-se com o desaparecimento do Ponto Final, que é seqüestrado e encarcerado entre dois Colchetes. Em conseqüência, o debate fica suspenso, porque, sem ponto final, nada se faz no nível de discurso. O ponto final é necessário para a frase e para completar qualquer texto, senão as frases seriam intermináveis e os discursos inacabados. O Ponto Final está preso, nas grades do Colchete. O sequestro do Ponto Final é articulado pelo Trema e pelo Hífen, dois acentos gráficos ameaçados de terem seus “serviços dispensados”, de serem eliminados da ortografia no novo Acordo.

AS PERSONAGENS
As personagens são, em sua maioria, figuras gramaticais, além dos sinais gráficos e ortográficos e de certos recursos literários. O Enredo é a personagem principal. A verossimilhança da respectiva função gramatical de cada personagem determina seu perfil psicológico, estabelecendo uma coerência interna nas diversas situações recriadas. Assim, o Advérbio de Igualdade é o comunista de carteirinha; a Metáfora é a mulher maravilhosa.
O primeiro capítulo começa com a introdução das personagens, mas em todos os capítulos surgem novas, até mesmo já no fim da obra aparece o senhor K, personagem “doido de vontade de entrar para a língua”. O K é apenas usado em palavras estrangeiras, por isso se tornou um matador profissional do idioma nacional.
São personagens:
• os sinais gráficos e tipográficos: o Asterisco, o Negrito, o Caixa Alta, e o Itálico;
• as classes de palavras: o Substantivo, o Palavrão - um tipo de substantivo obsceno, o Verbo, o Advérbio, e a Interjeição;
• o vício de linguagem: o Solecismo;
• o paratexto: a Nota de Pé dePágina;
• os sinais de pontuação: o Ponto de Exclamação, que acompanha a Onomatopeia; o Ponto Final, as Reticências, e as Aspas;
• as figuras de linguagem: a Metonímia e a Metáfora; as figuras de pensamento, como a Onomatopéia; e as figuras de sintaxe, como o Pleonasmo.

AS ISOTOPIAS
O verso da língua apresenta várias isotopias, ou seja, vários níveis de leituras possíveis, pois o romance em si não é um texto unilinear ou unívoco. Quanto ao gênero, pode ser um romance gramatical, como o subtítulo indica, um romance policial, ou um manual didático sobre classes de palavras e figuras de linguagem. Como romance gramatical, possui enredo, personagem, tempo, espaço e focalização. Como novela policial tem intriga, seqüestro, assasinato e suicídio - todos os ingredientes para uma obra bem-sucedida à la Agatha Christie. Como instrumento didático, pode servir para o ensino menos árido das categorias gramaticais no segundo grau, dentro do novo didatismo co-participativo. O enredo policial pode ser uma forma de amenizar o ensino da gramática.
Acima de tudo, trata-se de um “romance gramatical”, sub-título da obra, por apropriar-se da língua e de seu funcionamento para reapresentar estes aspectos estilizadamente.

A ESCRITA
Vimos que o objetivo do sequestro, do assassinato e do suicídio foi a língua portuguesa, em sua forma escrita.. Portanto, o que está em jogo nesta obra é a escrita. O texto é usado como pretexto para recriar o mundo. Este, por sua vez, só pode ser recriado com/o enredo. O Enredo é, pois, a personagem básica e central; o Substantivo que pretendia sê-lo tem de se submeter ao Enredo. Temos, em outras palavras, um texto sobre o texto (um metatexto), apoiado sobre o Enredo. Mas não se trata de uma narrativa encaixada, pois os dois romances, o policial e o gramatical ocorrem concomitantemente.
Portanto, o Enredo é o verdadeiro dono do poder literário: “Eu sou o Enredo. Eu inventei ‘Guerra e Paz’ para o Leon escrever. Eu dei a dica para aquele mulherengo do Alighieri tomar vergonha na cara e botar no papel ‘A Divina Comédia’. Eu assoprei o ‘Fausto’ nos ouvidos do Wolfgang” (100).

A IDEOLOGIA
Outra leitura, mais específica, deste romance é lê-lo desde um ponto-de-vista antropológico, como uma sátira da cultura brasileira em termos ideológicos. O brasileiro dá uma importância vital a problemas secundários, como o beletrismo, cultivando as belas letras e deixando de lado a realidade nacional. A reforma ortográfica na obra - e por que não dizer na realidade brasileira - é disputada como uma eleição política; a obtenção da vitória significa a consolidação do status num círculo intelectual restrito dentro da cultura brasileira. Como diz Aguiar: A novela pode sugerir que o verdadeiro assassinato da língua não está tanto em cometer erros gramaticais, mas em utilizá-los como arma do crime de exclusão contra a maioria de um povo a quem se negam as possibilidades - e o direito - de afirmar-se através da palavra… (Aguiar 8)

Leia um fragmento do romance aqui: