Artigos marcados com ‘educador’

COM A PALAVRA: JÚLIO LUCHMANN: O papel do professor

Penso que um dos principais desafios do professor de filosofia para os ensinos fundamental e médio é criar um espaço que possibilite a compreensão da filosofia por parte dos alunos que vai muito além de se ter acesso a informação pura e simplesmente, que hoje está bastante facilitados pelos materiais didáticos e meios de comunicação.
É do professor o papel primordial de criar um fio condutor que desperte nos alunos a curiosidade, faça deles investigadores, críticos e criadores da filosofia, que com auxílio de metodologias e encaminhamentos didáticos possibilite aos alunos serem mais que meros espectadores do mundo filosófico ou então apenas reprodutores de conhecimentos prontos.
Assim, um professor de filosofia é aquele que é aquele que esta sempre disposto a aprender coisas novas a cada dia, disposto a provocar diálogos e incentivar pensamentos autônomos e criativos que possibilitem aos alunos serem eles mesmos pessoas que compreendem e produzam filosofia não apenas no ambiente escolar, mas para suas vidas.

COM A PALAVRA, O EDUCADOR: Mito de Narciso, personagem grego que nasceu com um dom que se converteu em maldição: sua beleza.

Abaixo, o texto que a professora Aline Adriana da Silva, do Colégio Palmarino, Calabrez escreveu.

Diz-se que ao nascer, os sábios orientaram sua mãe que jamais deveria deixar o menino olhar sua imagem em um espelho, pois o choque ao ver sua beleza seria imprevisível. Assim viveu o garoto, até que um dia, durante uma caçada em meio ao bosque, parou para tomar água em um lago que ali havia. Ao ver sua imagem refletida nas águas serenas do lago, tal como um espelho, viu imagem de tamanha beleza que tão logo a contemplou já se apaixonou e então, perdido de amor, tentava abraçar a imagem mas sempre que tocava o lago ela se desfazia em suas mãos.
Depois de muito tentar, percebeu que tratava-se de um amor impossível e, já sem esperanças, decidiu matar-se ali mesmo, à beira do lago. E do sangue que regou a terra nasceram flores brancas, as quais se deu o nome do jovem: narciso.
Em geral, é consenso interpretar o mito como a história de uma pessoa enamorada de si mesma que cai no erro de confundir-se com sua imagem no lago. Muito se fala dos narcisistas, pessoas que se amam mais do que amam a qualquer outra pessoa.

Também é consensual entender que a história terminou em tragédia. Porém, à luz da simbologia universal, utilizando-se das analogias presentes em todos os mitos, podemos fazer uma nova leitura desta narrativa e perceber nela algo mais, que tal qual um farol nos faz olhar na direção de nós mesmos.
De fato, Narciso é uma pessoa enamorada de si mesma e de fato, caiu no erro de confundir-se com sua própria imagem no lago. O detalhe é que esse mito não fala de um garoto em particular, mas sim de uma característica típica de todo ser humano, seja bonito ou feio, novo ou velho. Para entender isso precisamos antes entender o que é a paixão.

A paixão é uma força de atração, um magnetismo que em realidade nós projetamos sobre o objeto do encantamento. As coisas pelas quais nos apaixonamos muitas vezes não tem todo aquele brilho, mas nós depositamos nelas todo o brilho do mundo (nosso mundo) e então nos sentimos fatalmente atraídos por elas. Na verdade, a pessoa apaixonada é a grande responsável por isso, pois ela é quem se enamora e ao mesmo tempo a fonte geradora de todo magnetismo depositado.
Quando uma pessoa se apaixona (e isso pode ser por uma outra pessoa, por um objeto, ou por um ideal, não importa) o que ocorre é que a pessoa se apaixona por um ideal que está dentro dela mesma e ela projeta sobre o objeto de sua paixão. Na história de Narciso, acontece igual: ele se apaixona por um reflexo que ele mesmo projetou no lago (símbolo do inconsciente, representando também nossas energias criadoras/criativas, fonte daquilo que os alquimistas chamavam de luz astral).

Em outras palavras, sempre que estamos apaixonados, estamos vendo um ideal projetado sobre a outra pessoa e não a própria pessoa, a qual a gente vai ver um pouco depois que a embriaguez da paixão diminuir (que, segundo estudos, pode chegar a durar até dezoito meses). Quando a overdose de hormônios da felicidade diminui, a pessoa deixa de ver o ideal e passa a ver o real e nisso muitas vezes é que vem a decepção, a desilusão (observe-se a palavra, indicando que a ilusão se foi). Até aqui, então, vemos que todos somos Narcisos, sempre buscando um lago para refletir nossa própria imagem e dizer “que coisa linda!”
Porém, no mito, Narciso não fica só nisso por muito tempo. Tão logo percebe que aquela paixão é impossível (é ilusória) ele resolve morrer. Nos mitos, a morte associa-se à transformação, a deixar de ser o que se é. E isso vem confirmado logo em seguida, quando de seu sangue brotam flores brancas, as quais recebem o seu nome. As flores, nos mitos, geralmente representam as virtudes da Alma ou o resultado da transformação. São brancas porque fazem a percepção retornar à pureza, ao original, ao que realmente é.
Em síntese, encontramos no mito de Narciso muito mais do que a figura do amor por si mesmo, mas o princípio da natureza humana de depositar sua imagem, seu reflexo, em tudo que vê. No mito é abordado um lado da moeda, que é a questão de lançar seu reflexo e apaixonar-se, mas isso deve-se ao fato de que sua imagem era bela. Mas quantas vezes lançamos um reflexo tenebroso sobre as pessoas e nada mais é do que nossa própria imagem que refletimos? Por exemplo, a pessoa que está sempre mentindo: naturalmente, está sempre achando que os outros mentem pra ela. O malicioso está sempre achando que estão querendo enganar ele. O cobiçoso, sempre com medo que peguem o que é dele. O irado está sempre achando que estão respondendo “torto” pra ele.

O luxurioso não pode ver um sorriso do sexo oposto que já fantasia onde aquilo vai terminar. Enfim, basta pensar que se uma pessoa está usando óculos com lentes vermelhas, tudo que ela enxergar vai ter uma tonalidade vermelha. Isso nos mostra o mito de Narciso: tudo que enxergamos em um primeiro momento tende a ser uma projeção de nosso mundo interior, que personificamos nas pessoas e acontecimentos à nossa volta.
Para concluir, Narciso (agora podemos chamar de o herói Narciso) mostra que é necessário matar a si mesmo, no sentido de renunciar a essa visão distorcida, egoísta, tendenciosa, para que então surjam a visão adequada, real, “pura”. E, para completar essa jornada de transformação, precisamos aprender a olhar para dentro e enxergar essas pequenas distorções .

Aline

COM A PALAVRA O EDUCADOR

Caros, como disse no e-mail: para melhorar a comunicação entre a assessoria e os educadores, resolvi publicar os comentários aqui mesmo.

Abaixo, o comentário da educadora Cleide Suely:

“O trabalho com pluralidade cultural tem que ser rigoroso e merece maior atenção por parte dos educadores. Me deparo diversas vezes com todos os tipos de racismo, e já sofri na pele (sou negra) o arraso que isto faz na vida de uma criança. É na escola, espaço social da criança, que ela quer ser vista, notada. Sabemos que a escola não pode ser pensada como um lugar separado da sociedade. Entretanto, ela é uma instituição social como outras, e, nesse sentido, é orientada pelas ideologias e formas de relacionamento entre indivíduos e grupos que vivem no seu entorno.
Ressalto que é necessário a educação escolar considerar a diversidade, tendo como valor máximo o respeito às diferenças, não o elogio à desigualdade. As diferenças não são obstáculos para o cumprimento da ação educativa, podem e devem, portanto, ser fator de formação da cidadania.”