Guerra da Tríplice Aliança

rarc2a1ssima_guerra_do_paraguai_biblioteca_nacionalHistoriografia Sobre a Guerra da Tríplice Aliança

Olá, vamos conversar sobre a produção historiográfica que aborda a Guerra da Tríplice Aliança. Comumente conhecida como Guerra do Paraguai, o conflito foi desencadeado entre 1864 a 1870, e deixou marcas profundas nas nações envolvidas.

Principais Correntes de Interpretação do Conflito

Podemos identificar quatro diferentes correntes de interpretação sobre o conflito, destacando que não existe uma coerência absoluta entre textos que formam estas correntes. Estes foram agrupados devido as suas características mais gerais.

Textos de Época

Começamos pelos relatos de quem presenciou diretamente o conflito. Personagens que vivenciaram o conflito como soldados, observadores militares ou viajantes.

Não é porque foram escritos por pessoas que observaram diretamente vários momentos do conflito, que seus relatos são absolutamente “verdadeiros”, e não precisem passar pela análise do historiador. Estes relatos representam o ponto de vista pessoal, construído a partir do envolvimento com os acontecimentos. Tratam inevitavelmente o tema com parcialidade de interesses, ou por não conseguirem entender os aspectos mais gerais da questão. Cabe ao historiador profissional entender as questões que foram tratadas, da forma pela qual forma tratadas, compreender que o texto esconde um ponto de vista. Por outro lado deve perceber o que ficou soterrado, o não dito.

A partir desses relatos podemos ter um acesso diferenciado a certos acontecimentos do período. Momentos que não foram registrados nos arquivos dos países envolvidos, especificidades de uma visão mais microscópica. As descrições pessoais dos evolvidos possibilitam uma descrição mais viva e humana das batalhas e das condições dos soldados no front.

Estes relatos são excelente material de estudo para as análises dos historiadores, e devem ser tratados como fontes de pesquisa.

BURTON, Richard Francis. Cartas Dos Campos De Batalha Do Paraguai. Rio de Janeiro: Bibliex, 1997.

TAUNAY, Visconde de (Alfonse D`Escarole Taunay). Diário Do Exercito. Campanha Do Paraguai 1869-1870. Rio de Janeiro: Bibliex, 1992.

Historiografia Patriótica

Desde o início do século XX até a decadência do Regime Militar, floresceu uma visão patriótica sobre o conflito no Cone Sul. Nessa visão a participação brasileira foi isentada de problemas, contradições e falhas, só restando o heroísmo.

Foram destacados vários personagens, como D. Pedro II, o rei comandante em armas, que se fazia retratar em trajes militares, Luiz Alves de Lima e Silva, já destacado militar, vitorioso em confrontos internos no Norte e no Sul do império e o “bravo” General Manoel Luiz Osório.

Por outro lado, os paraguaios, e em especial seu líder Solano Lopes, foram alcunhados pejorativamente. Sendo responsabilizados pelo conflito e suas consequências. Todo o ônus, de julgamento histórico e prejuízo material recaíram sobre a nação vizinha.

Observamos que tal viéis historiográfico se fixa na relação maniqueísta de certo e errado. Se for uma ação da minha nação ela é certa, o outro, sempre é a ameaça, sempre está errado.

Temos como exemplo:

LIMA, Oliveira. O Império Brasileiro. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1989.

TASSO FRAGOSO, Augusto. História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai Volume 1. Rio de Janeiro, Bibliex, 1956.

Historiografia Revisionista

Uma nova visão sobre o conflito foi inaugurada no Brasil com a publicação do livro “Genocídio americano. A Guerra do Paraguai”, de Julio José Chiavenatto. A instigante visão do autor está baseada numa historiografia já conhecida na Argentina e no Paraguai, e que, por diferentes caminhos, apontavam na direção de denunciar o conflito como interesse da Inglaterra em destruir o exemplo de desenvolvimento autônomo realizado pela nação Guarani, e assim subjugar todo o continente.

Percebemos um patriotismo invertido, ou seja, a completa desqualificação dos “heróis” nacionais, agora vistos como “vilões”, e a qualificação dos “vilões” paraguaios colocados no panteão dos “heróis” e mártires da América Latina autônoma e anti-imperialista.

A nação guarani foi retratada na condição de potência econômica, militar, social e com alto grau de industrialização realizada com capitais próprios, projeto nacional autônomo, escolarização geral e desconcentração fundiária. A liderança de Solano Lopes se insurgiu contra as ações imperialistas da Inglaterra e seus lacaios, a Argentina e o Brasil, ambas as nações colocadas na dependência da Inglaterra por sua elite política antinacionalista.

O Brasil e a Argentina teriam agido como marionetes manipuladas pelos interesses ingleses. A Inglaterra queria impedir que este exemplo de autonomia se espalhasse no Continente, e prejudicasse seu comércio.

Esta versão desqualificou os principais heróis militares brasileiros, e foi bem recebida pelos grupos de oposição ao regime militar, que no período já se encontrava em decadência.

Notamos, também, que esta versão alcançou um amplo sucesso de vendas e influenciou a produção de livros didáticos, marcando o imaginário de uma geração de brasileiros.

CHIAVENATTO, Julio José. Genocidio Americano. A Guerra Do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1979
Estado atual da arte

Uma renovação historiográfica vem se processando acerca do conflito militar que abordamos. Esta renovação tem por característica uma maior profissionalização do trabalho do historiador, bem como uma ampliação sobre as abordagens do tema.

Quando nos referimos a uma maior profissionalização do trabalho do historiador, queremos dizer que certos paradigmas foram superados, destacadamente o binômio “heróis e vilões”, pois sabemos que na sociedade não há esta clara separação entre bons e maus, e sim que os interesses em jogo são amplos, complexos e contraditórios.

Também nos referimos a uma profissionalização quando observamos a ampliação do uso das fontes e um refinamento em sua crítica. Um exaustivo trabalho com as fontes amplia a visão que o historiador pode ter sobre seu objeto de estudo.

Nesse sentido destacamos a obra “Maldita Guerra” de Francisco Doratioto. O autor realizou um vasto levantamento crítico de fontes, abordando as razões da Guerra dentro de um contexto de rivalidades das nações do Prata. Discutindo com um viéis crítico as atuações de Brasil, Argentina e Paraguai, não poupando críticas a nenhum dos partícipes.

A condição do Paraguai enquanto um país desenvolvido também foi analisada pelo autor. O desenvolvimento autônomo alardeado se dava mais por dificuldades do que por projeto político, ou seja, pode ser entendido como incapacidade de se colocar no mercado mundial, devido à falta de um produto para exportação tal como seus vizinhos dispunham, a exemplo da cana-de-açúcar, café do Brasil ou a lã, trigo e carne da Argentina, fato que fazia que a economia paraguaia se voltasse mais para dentro do que para fora.

A centralização nas mãos do Estado dos poucos recursos existentes permitiu a instalação de uma fundição em Assunção, mas esta ação ficou longe de ser um marco para o desenvolvimento da região. O Paraguai continuava a importar a maior parte de seus equipamentos militares, e o fazia junto à Inglaterra.

Já a atuação da Inglaterra teria sido a de observadora, pois tinha interesses no comércio com a região, e a guerra trazia oportunidades para uns e problemas para outros setores deste comércio. Os ingleses e franceses venderam e emprestaram dinheiro para todos os países envolvidos no conflito, não demonstrando interesse, expresso pela sua chancelaria, em destruir o Paraguai, afirma Doratiotto.

Outra obra marcante e inovadora sobre o tema é “Adeus, Chamigo Brasileiro: Uma História da Guerra do Paraguai” de autoria de André Toral. Trata-se de uma História em Quadrinhos que acompanha a vida de quatro personagens que se envolvem com a Guerra.

A ênfase se dá sobre as relações cotidianas destes personagens fictícios, descortinando aspectos de relevância para eles, numa visão historiográfica na linha da “história vista de baixo”, que ilumina a experiência de vida de pessoas comuns, e não dos grandes vultos.

Outra obra do mesmo autor é “Imagens em desordem”, que explora a iconografia sobre o conflito. Pesquisando e analisando imagens produzidas pelos envolvidos no conflito, o autor extrapola as fontes mais tradicionais, utilizando metodologia de pesquisa e crítica teórica mais refinada, inovando as pesquisas na área.

Percebemos que as obras de Doratioto e de Toral são frutos de diferentes metodologias de pesquisa. Enquanto o primeiro pretende produzir uma história geral da guerra, com uma abordagem cronológica e totalizante, o segundo mergulha em fontes, até então, heterodoxas, produzindo uma visão mais próxima da micro-história.

Notamos a diversidade metodológica nas pesquisas atuais, que possuem em comum um maior aprofundamento da pesquisa documental, mas que podem produzir obras com diferentes abordagens.

DORATIOTO, Francisco Fernando.  Maldita Guerra. Nova Historia da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

TORAL, André .Imagens em desordem. Iconografia da Guerra do Paraguai (1864-1870). São Paulo: Humanitas FFLCH/USP. 2001.

TORAL, André. Adeus, chamigo brasileiro. Uma História da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
O Conflito Platino e o Livro Didático

A escrita de um livro didático é fruto das variadas leituras de seu(s) autor(es). Nem sempre a velocidade da produção acadêmica é acompanhada pelo autor didático, e a incorporação de novos temas ou novas abordagens tem uma temporalidade própria.

Ao incorporar novos temas e, principalmente novas abordagens, o autor tem por objetivo atualizar a sua produção, colocando-a em compasso com a produção acadêmica, mas, por outro lado, pode provocar desconforto nos professores que se habituaram a trabalhar certas versões.

Nós, professores, devemos estar atentos às renovações das propostas metodológicas e teóricas da pesquisa, bem como, em seus resultados, para podermos identificar e nos posicionar em relação a estas novas tendências. A cristalização do conhecimento não é uma postura pedagógica adequada.

A introdução de uma nova abordagem não se faz repentinamente. A proposta do autor permite cumprir seu projeto de renovação de abordagem, e não coloca o professor em xeque, pois lhe da os subsídios necessários para acompanhar esta renovação.

Esperamos ter contribuído e desejamos a todos um bom trabalho.

Obrigado e até breve.

(veja um vídeo em) https://www.youtube.com/user/Walfrido64 (obrigado à Márcia Severiano)